Neste final de semana (08 e 09/10/2016) tivemos alguns grandes eventos de PHP acontecendo no país, o PHPeste em Salvador, que reuniu todas as comunidades de PHP do nordeste, e o Laraconf Brasil em São Paulo, mais voltado para o framework Laravel.

O interessante dos dois eventos, e de muitos outros eventos não só de PHP mas de linguagens de programação do lado do servidor que vem acontecendo no país, é notar que cada vez mais conteúdo do front-end vem sendo abordado. No PHPeste foram três palestras falando exclusivamente de tecnologias de front e no Laraconf Brasil, pelo menos uma falava sobre o Elixir, que é a abstração de front que o Laravel traz para facilitar o desenvolvimento, mas que não deixa de ser o bom e velho front-end e suas tradicionais tecnologias.

Mas por que isso está acontecendo com mais frequencia? E por que eu, programador back-end PHP tenho de me preocupar com isso? Pra mim a resposta é bem simples: porque não da mais pra ficar em sua zona de conforto dominando apenas uma tecnologia.

Ta bom, essa resposta é cliché, eu sei, mas é a economicamente mais forte dentre outras que posso dar. No meu caso, foi algo a mais. Não foi só a exigência do mercado em profissionais que agregassem mais funções, pra mim teve o desafio de aprender coisas novas, a curiosidade mesmo. E quando conheci o front-end, me apaixonei de vez.


Eu comecei a programar em 1998 com ASP 3.0, fazia um blog pessoal que usava o MS Access como banco de dados! E olha, funcionava que era uma beleza! Mas o que me fez migrar do ASP para o PHP foi mesmo a condição financeira, não dava pra bancar um servidor Windows (que rodava IIS com ASP 3.0) só pra manter um blog no ar. Na época, os blogs estavam começando a ganhar popularidade e ainda eram chamados de web logs, e foi quando surgiu o Blogger. Mas eu não queria usar uma plataforma, eu queria fazer o meu! E descobri que servidores PHP já eram gratuitos naquela época (hoje nem se acha mais).

Então eu segui conhecendo coisa nova e fui aprendendo. Mas até aí eu estava só no back-end. Lembro que até já falei um dia “JavaScript pra que? Isso não é linguagem de programação, da pra fazer nada com isso. Prefiro meu PHP”, e seguia evangelizando com PHP por onde eu passava. Na faculdade, até colegas passaram a usar PHP por influencia minha, e usam até hoje. Ganham a vida com isso.

Mas chegou o grande momento, começar a ganhar dinheiro com desenvolvimento. Até então, tudo que eu fazia e aprendia era para uso pessoal. Um blog, um site, algo pro meu grupo do mIRC na época… E chegou o grande dia de entrar numa empresa para trabalhar exclusivamente com isso. Fui contratado por uma empresa de Engenharia para criar e administrar os sites do grupo. Sim, no plural, os sites. E eu só sabia PHP e o básico do HTML 4 e o mais básico do básico ainda do CSS. JavaScript? Hum, nem sabia como funcionava. Pra vocês terem uma ideia, eu cheguei a programar em Visual Basic 6, e usei VBscript uma ou duas vezes na web, e só!

Então, tive de aprender o front-end. Pro JavaScript, encontrei uma solução bem comoda: usar jQuery (porque ai eu não precisava saber JS puro), e isso me serviu por anos. Mas o legal disso foi que eu, na minha curiosidade, não fiquei só no básico de HTML+CSS+jQuery, eu fui além, e mais além. Aprendi tanta coisa legal que, sim, me apaixonei pelo front-end também. Não abandonei de forma alguma o meu bom amigo PHP, ele sempre me serviu bem, me rendeu discussões homéricas em defesa dele, me fez bater muito na Microsoft com seu legado furado, mas, sério, nunca pensei em largar o meu back-end.

Ai veio o boom da web, e de repente pra onde você olhava tinha site, tinha serviço, tinha comércio e tinha, obviamente, lugar para trabalhar. Mas depois de um longo verão, sempre vem um longo inverno, e foi o que aconteceu. O boom diminuiu, as empresas começaram a cortar gastos e a limpar suas equipes, e foi aí que começou a ode do desenvolvedor fullstack. Esse cara passou a ser o preferido nas empresas, pelo menos as de pequeno e médio porte, porque com um salário só (que também não era melhor para compensar o aumento de tarefas) o mesmo cara fazia a programação no servidor, fazia o layout, desenvolvia o site e, de quebra, ainda dava uma de suporte. Olha que maravilha!

Quem já não estava preparado para isso, correu atrás. E teve alguns que bateram o pé, é verdade, e até concordo, mas que só conseguiam sucesso em empresas maiores porque estas ainda mantinham times de profissionais independentes.


Final

Isso tudo, pra mim, não foi de todo ruim. Serviu pra dar uma agitada no mercado, fazer as pessoas saírem de suas zonas de conforto, fez com que pessoas que não estudavam há anos voltassem a comprar livros, frequentar forums, participar de comunidades. Fez deles desenvolvedores mais experientes. E acredite, essa mudança forçada ainda fez muita gente se apaixonar, como eu, pelo front-end também.

Daí veio, o AJAX, a web 2.0, os webservices, os microserviços, a escalabilidade, o streaming, a web móvel, as aplicações móveis, a web responsiva, as aplicações híbridas… e agora eu estou aprendendo sobre Progressive Web Apps! É muita coisa boa.

Então, sim, um programador PHP deveria sim se interessar pelo front-end, aprender, desenvolver, ficar antenado (e não é só conhecer as classes do Bootstrap). Se não para exercer uma função fullstack, para pelo menos entender todo o processo do sistema/serviço em que está trabalhando. Para poder discutir de igual para igual com a equipe de designers, com os stackholders, com o próprio cliente. Para poder dar ideias não só sobre o servidor, mas também sobre como a aplicação vai se comportar lá na frente. Isso é bom, ter essa visão é gostoso, saber como todo o ecossistema se comporta é gratificante!


Por isso, meus amigos, saiam de sua zona de conforto, vão pro front, aprendam mais, brinquem mais, implementem mais, criem! Hoje me considero um profissional feliz e realizado, isso porque posso atuar nos dois lados sem dificuldade, exercito minha criatividade, interajo com muitas opções de desenvolvimento e ainda me arrisco em outras áreas. O retorno é garantido, tanto profissional como pessoalmente.